quinta-feira, 30 de junho de 2011

Cena 858: Segue fielmente ao referido achado, pertencente ao sujeito #864. Codinome: Arquimedes.

“não tenho a mínima idéia de quanto tempo se passou até que eu pudesse parar e escrever o que tem ocorrido comigo, não só comigo, mas com todos. Ninguém imaginava que aconteceria tudo isso, claro, alguns diziam que era inevitável, chamávamos de loucos, hoje muitos se perguntam ‘como não víamos?’ ou ‘como não dávamos importância?’, pouco importa, não vai mudar o que aconteceu. Engraçado e trágico como as coisas mudaram tão drasticamente de figura, um dos caras de meu grupo de reconhecimento disse que ‘talvez tenha sido necessário’, nem sei por que estou escrevendo isso, tudo tão óbvio! É só olhar ao redor! O mesmo cara disse que não mudou droga nenhuma, foi apenas ‘uma transformação’, não sei, nem penso nisso, mas ele parecia saber do que falava, eu o respeito, já me salvou a vida algumas vezes, nunca me cobrou nada e também está tão afetado quanto todos nós, todos perdemos alguém ou alguma coisa que gostávamos e amávamos. Nem sei se o que estou tentando escrever está em alguma maldita norma, regra, lei, sempre tentávamos criar uma forma de exclusão tentando incluir algo, dane-se, o que me importa é transmitir o que escrevo e que ao menos seja entendido sem que tenha um desgraçado dizendo que verbo ou conjunção está errado. Ainda quero ver como um desses filhos da mãe está se virando agora, depois de tudo isso, diziam que tínhamos que viver, mas esquecemos de como sobreviver. Tanta tecnologia para poucos e hoje nos serve para nada, acho que nunca serviu, só para dizer que podíamos ter, acho que nesse ponto meu ‘salva vidas’ estava certo, ‘ter algo só tem valor desde que reconhecido por alguém que não o tenha’, isso me revolta, sempre me revoltou, mas o que podia fazer, eu também contribui de alguma forma para aquilo que eu mesmo criticava, hoje estou diferente, todos nós estamos, o mundo, o mundo mudou, todos nós. Lembro que tínhamos celulares ou smartphones, pfff sempre uma denominação diferente, mas as mentiras sempre as mesmas, aparelhos que possuíam aplicativos (acho que era isso) como ‘luz de vela’, reproduziam uma vela acesa na sua tela, mas não nos ensinou como fazer fogo do zero, gerar energia elétrica ou purificar água. Tínhamos tudo e nada ao mesmo tempo. Não tenho muito tempo para falar a toa, daqui a pouco temos que fazer outra busca quilômetros à frente. Engraçado, hoje falamos em ‘nós’, antes era apenas ‘eu’, eu baixei isso, eu comprei, eu vendi, eu peguei. Talvez mesmo, e isso que me dói como o dia que quebrei um dedo naquele maldito resgate, talvez isso tudo tenha sido necessário para que ao menos ‘eu’ e todo mundo, reconhecesse o valor de um copo de água, do azul do céu, do latido de um cachorro, parece que começamos a respeitar mais do que nunca as formas de vida, qualquer que seja, infelizmente nem todos o fazem. Hoje encontramos um saco de dinheiro, não nos serve para nada, papel, precisamos encontrar moedas, muitos tempo atrás enlouqueceriam ou nos chamariam de loucos por isso, mas derreter moedas nos dá mais munição para os rifles, como ele diz ‘isso nos mostra como o valor de uma moeda é simbólico’. Temos o necessário hoje, e pensar que antes trabalhamos para ter algo totalmente inútil, era útil só para esfregar na cara de quem não tinha. Água e comida hoje são o principal e dizer que muitos antes, lavavam suas latas de sardinha que chamavam de carros, sempre com diferentes nomes e aparência, mas sempre com a mesma função, lavavam todos os dias, litros e litros de vida esgoto a baixo. Como vivíamos dessa maneira?

Transcrição #27, feita do diário de voz #5150 encontrado no Setor Sul 2.
Ano: 3 D.I. Hora: 1147

O autor do texto pediu para não ser identificado.

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