domingo, 27 de fevereiro de 2011

Cena 667: ai, mãezinha querida


ai, mãezinha querida

é a primeira vez que lhe escrevo contando a verdade. Minha mãe, as outras cartas foram escritas ao sabor das ilusões por esta pobre tola que é a sua filha. Que tristeza. Como é que isto foi me acontecer, é o que eu pergunto, é o que eu pergunto à senhora e ao papai. Ultimamente tenho pensado muito em vocês. Que saudades. E que dor.

Me vejo menininha, de fita no cabelo, vocês me levando à matinê. Era sempre um filme de faroeste, vocês se lembram? Todo o mundo torcia pelo mocinho, eu batia palma para os índios.(Aliás - não seria isso um sinal de que as coisas, já naquela época, não iam bem? Não deveriam vocês ter tomado alguma providência? Não sei. E não adianta saber.)

Me vejo no colégio, e depois na Faculdade. Penso que nunca deveria ter estudado Ciências Sociais. Não deveria ter estudado nada. O estudo só me touxe desgraças. Foi por causa da Faculdade, por causa da Antropologia que eu conheci este meu marido, este Peter. Este bandido.

Estou imaginando a cara de vocês ao lerem isto. Imagino que vocês devem estar se perguntando, como é que ela diz uma coisa destas do marido? Pois digo. Maldito. Maldito. Três vezes maldito. Agora sei quem ele é. Na época da Faculdade não sabia. Eu era uma estudante fascinada pela Antropologia. Ele um professor-visitante - de Antropologia. Tinha de acontecer: ele e olhava, eu o olhava. Fomos jantar juntos, ele me contou, com orgulho, que tinha sangue índio - cheyanne (e era loiro, o diabo!). Eu contei dos filmes, da minha paixão pelos índios. Fez uma careta de desgosto (fingia be, o bandido), disse que os índios americanos já não eram os mesmos, que os índios do Brasil, sim, é que conservavam a pureza do homem primitivo.

Homem primitivo. Eu deceria ter prestado atenção àquelas palavras, mãe. Mas não: estava apaixonada, e só queria casar com ele, e a senhora bem se lembra de minha alegria quando noivamos. Eu também me lembro de sua satisfação, e não a censuro por isto. Um jovem professor americano, inteligente, bonito, simpático - a senhora só podia gostar dele. Vocês ficaram orgulhosos, vocês contaram para todo o mundo, vocês deram uma linda festa em nosso casamento. Tudo isto é compreensível. Quando Peter anunciou que iríamos para o ato, para junto do toldo indígena, vocês ficaram chateados, mas disseram - e eu compreendo que vocês tivessem dito - que uma mulher deve acompanhar o marido, como aliás está na Bíblia. Arrumei as malas e fui; e desde então, tudo o que vocês sabem de mim é pelas cartas, não é verdade? Eu dizia que tudo estava bem; que os estudos de Peter progrediam; que eu estava contente cuidando de nossa casa, modesta mas confortável, a melhor casa da região; isto eu dizia, mas, me dói confessá-lo, era tudo mentira, mãe. A verdade era outra, e é outra, e é por isso que eu nunca quis que vocês viessem nos visitar. Aleguei que o Peter precisa se concentrar no trabalho. Mentira. eu não queria que vocês vissem como estamos vivendo aqui.

No começo foi tudo bem. Nos instalamos na casa - uma casa velha, de madeira, construída mesmo no mato, próxima ao toldo indígena. Peter dizia que se sentia bem ali, que aquela era a vida que ele sempre desejara - autêntica, rude, primitiva, no meio da natureza. Eu sentiafalta de algumas coisas - da luz elétrica, principalmente, e do cinema - mas procuravame mostrar animada. Todos os dias de manhã ele saía para o toldo dos índios. Eu ficava cozinhando, e limpando, e lavando roupa. Mas até aí, tudo bem.

Um mês depois de nossa chegada, ele - que só andava de terno e gravata - começou a usar umas bemudas velhas e rasgadas; e camisa não botava. Achei estranho, mas enfim, fazia calor. Insistiu para que eu usasse o mínimo de roupa possível. Achei inconveniente aquilo, para uma moça sozinha no mato, mas para não contrariá-lo - mas aí eu deveria ter dado o basta! - concordei.

Na semana seguinte ele me aparece de tanga.

Isto mesmo, mãe. Uma tanga feita da pele de algum animal (gato-d0-mato, acho), amarrada à cintura com um cipó. Voltei à vida primitiva, disse, com um sorriso que me gelou o sangue. E daí por diante foi uma coisa atrás da outra.

Arrancou as tábuas do assoalho, dizendo que queria sentir a terra sob os pés. Passamos a dormir no chão. A casa num instante ficou cheia de mato; eu cozinhava entre trepadeiras e gravatás (isto, enquanto pude cozinhar, como a senhora já verá). E cheio de bichos aquilo ali, formigas, desouros, lagartixas - até uma cobra matei, mãe! Eu que sempre tive pavor desses troços, fiz das tripas coração e matei uma cobra já que ia me subindo pela perna, enquanto eu fazia as necessidades (no chão. Banheiro também não havia mais).

Aí mandou que eu parasse de cozinhar. Vamos nos alimentar, disse, como fazem os primitivos: comem o que matam.

A coisa era assim. Ele voltava pra casa trazendo, digamos, um leitão. Soltava-o. O animal corria por toda a parte, derrubando as pucas coisas que eu mantinha arrumadas. E ele atrás! Ele perseguindo o leitão, uma faca entre os dentes, os olhos brilhando! De repente dava o bote. Com um grito assustador degolava o bicho, arrancava postas de carne crua, sangrenta e comia-as assim mesmo! E me obrigava a comer também. No começo ainda recusei, alegando que andava mal do estômago. Mas não pude resistir à fome. E era leitão cru, e peixe cru, e cabrito cru - e uma vez comemos um macaco que ele comeu no mato. Água, bebíamos a do rio e lá tomávamos banho também - eu tomava banho, porque ele preferia andar sujo. Estava horrível, os cabelos e a barba enormes e desgrenhados, e aqueles olhosque parecia carvões acesos. Já não visitava mais o toldo dos índios, que tinham medo dele. Subia a uma árvore e lá ficava, se coçando, até a hora de caçar, ou de roubar comida das chácaras vizinhas. Aliás, os chacareiros foram muito bons; não fizeram nada contra ele, se ofereciam para me ajudar e botavam minhas cartas no Correio.

Por que não contei estas coisas antes? Não sei. Talvez por não querer que vocês se assustassem. E também - confesso, eu tinha esperança que o Peter mudasse, que voltasse a ser um civilizado.

Agora, porém, já perdi esta esperança. E estou com medo.

É que ele deu para me olhar de um jeito esquisito, mãe. Fica me olhando e rindo, e dizendo que no tempo dos cabinais, sim, é que era bom.

Conto extraído da obra "O Anão no Televisor", de Moacyr Scliar.

Um comentário:

Michele Wesz Andres disse...

Também gosto muito do que ele escreveu. Me sinto enlutada por sua morte, mas concordo contigo, já que a vida tem dessas coisas...