quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cena 64: Institucionalizar

Às vezes eu tento fazer coisas, e não funcionam do jeito que eu queria. E eu fico muito frustrada. É tipo... eu tento muito fazer, e gasto meu tempo, mas não funciona do jeito que eu queria. É como... eu me concentro muito nisto, mas não funciona. E tudo que eu faço, tudo que eu tento... nunca dá certo. E... eu preciso de tempo para pensar nisso.

Tem sempre alguém dizendo: “Hei, Ana, a gente soube que você tem passado por vários problemas ultimamente. Talvez você devesse sair, e talvez você devesse falar sobre isso, você se sentiria bem melhor”.
Eu digo: “Não. Está tudo bem. Eu resolvo. Só me deixe sozinha. Eu resolvo. Eu me viro”.
E eles dizem: “Bem, se você quiser falar sobre isso, eu estarei aqui, sabe, e, provavelmente, se sentirá bem melhor se falar sobre isso. Então por que você não fala sobre isso?”.
Eu digo: “Não! Eu não quero! Eu estou bem! Eu resolvo sozinha”.
Mas eles continuam me aborrecendo. Continuam me aborrecendo. E isso me deixa furiosa.

Eu estava no meu quarto, e estava olhando para a parede pensando em tudo, mas então, novamente, eu não estava pensando em nada. E então minha mãe chegou, e eu não sabia que ela estava lá. Ela chamou meu nome mas eu não a ouvi. Então ela começou a gritar: “Ana! Ana!”.
E eu digo: “O quê? Qual o problema?”.
Ela diz: “Qual o problema com você!?”.
Eu digo: “Não há nada errado, mãe”.
Ela diz: “Não me diga isso! Você está drogada!”.
Eu digo: “Não, mãe. Eu não estou drogada. Eu estou bem. Só estou pensando. Por que você não me traz uma Pepsi?.
Ela diz: “Não! Você está drogada!”
Eu digo: “Mãe! Eu estou bem. Só estou pensando”
Ela diz: “Não! Você não está pensando, você está drogada. Gente normal não age assim!”
Eu digo: “Mãe, só me traz uma Pepsi, por favor. Tudo que eu quero é uma Pepsi”
E ela não queria me dar! Tudo que eu queria era uma Pepsi!

Então eles te dão uma camisa branca com mangas longas enlaçadas nas suas costas, te tratam como ladrões, te drogam porquê são preguiçosos. Dá muito trabalho ajudar um louco.

Eles me prendem numa instituição. Dizem que é a única solução para me dar a ajuda profissional necessária. Para me proteger do inimigo: eu mesma.

Eu estava sentada no meu quarto e minha mãe e meu pai chegaram. Então eles puxam uma cadeira e se sentam. Eles dizem: “Ana, precisamos falar com você”
E eu digo: “OK. Qual o problema?”
Eles dizem: “Eu e sua mãe temos ouvido falar que você tem passado por vários problemas. E você tem desaparecido sem razão alguma. E nós estamos com medo de que você vá machucar alguém. Estamos com medo de que você se machuque. Então nós decidimos que seria de seu interesse se colocássemos você em algum lugar onde você possa conseguir a ajuda que precisa”.
E eu digo: “Espere! Do que vocês estão falando? “NÓS decidimos”? “MEU interesse”? Como vocês podem saber qual é o meu interesse? Como vocês podem dizer qual é o meu interesse? E o que vocês estão tentando dizer? EU estou louca? Eu fui para as SUAS escolas, eu fui para as SUAS igrejas, eu fui para os SEUS institutos de facilitação de aprendizado! Então como vocês podem dizer que EU estou louca?”

Eles dizem que vão consertar meu cérebro, aliviar meu sofrimento e minha dor, mas enquanto eles consertam minha cabeça, mentalmente eu estarei morta.

Não importa. De qualquer forma, eu, com certeza serei atropelada por um carro.

Trilha sonora do filme Iron Man.

5 comentários:

New disse...

Oiêee!
Tem selinho prá vc aqui:
http://esturdio.blogspot.com/2009/09/selo-master-pra-quem-e-master.html

Beijos

AnneKira™ disse...

Claro que eu quero ser sua parceira sim ^^

Eu estava mesmo pensando em arrumar a area de divulgação das parcerias lá no meu blog, dai eu ajeito e linko você ^^

Edson Carmo disse...

É assim mesmo, ninguém tem liberdade para ser diferente. Diferença neste mundo insano nunca é vista como singularidade, e sim, como anormalidade. Se você decide ser singular logo eles irão lhe internar. Para eles, loucura nunca é o que se faz coletivamente, mas o que se faz individualmente. Para perder a singularidade, a individualidade eles inventaram a escolaridade.


Edson Carmo

Luciana Nogueira disse...

Talvez meu conceito de loucura seja outro, mas não importa. É como se quisessem nos trancas atrás de muros onde nós não temos acesso a nós mesmos. Como controlar a própria vontade de mudar, de não perceber que mudamos? Controlar sentimentos e reações aos olhos do mundoé simples; difícil mesmo é mentir para si e se esquecer de que não é verdade.
Como se proteger de si mesmo? Está aí uma resposta que eu sinceramente gostaria de encontrar, um dia.

Edson Carmo disse...

Entenda isso o mais profundo que puder, se você tem de se proteger de si mesma, então existem duas pessoas em ti, e uma está lutando contra a outra. Como seria possível uma luta sem dois pugilistas? De fato existem duas gladiadoras dentro de você, do contrário não haveria a mínima condição para a formulação de tal pergunta. Existe dentro de você uma dualidade, um conflito, um grande paradoxo que não é mais que a diferença entre seu SER e o “SEU EGO” criado e dado pela sociedade. Se você entender que você não é o EGO, se você abandoná-lo, então não haverá de quem se proteger.

Edson Carmo